quarta-feira, 26 de março de 2008

Maternidade: sonho e realidade, escolhas e sacrifício.

Há 2 anos,Cisne Bela e eu, demos um passo muito importante na realização de nosso sonho de ser mães: a inseminação do Pequeno Cisne. É realmente uma sensação muito diferente a de ir a um consultório médico sabendo que você pode voltar de lá grávida. Até sair o resultado do exame se passaram 2 semanas quase intermináveis. Finalmente um telefonema e o resultado: POSITIVO! Sonho ou realidade?
Até hoje sentimos a realidade batendo nas nossas portas. A realidade das mudanças que vem junto com o pacote maternidade. Aprendi a fazer escolhas e o sentido da palavra sacrificio. Para mim ela não tem um significado negativo, o que não significa que seja fácil lidar com esse significado, e está associado a nossa capacidade de discernimento, de optar por uma coisa em razão de outra. Decidi sacrificar temporariamente a minha carreira profissional, assim como o tempo que dedicava a mim mesmo em prol de outra coisa: a Família Cisne. Como posso ficar bem se a família Cisne não estiver bem também?
Sim, conseguimos transormar o nosso sonho em realidade, mas ainda estamos aprendendo a lidar com a realidade do nosso sonho.

quarta-feira, 19 de março de 2008

Neuróticos e Pecadores num Mundo de Expiação e Provas

Certa feita, durante uma sessão de psicanálise, entendi que, segundo Freud, somos todos neuróticos ou psicóticos. Nossa realidade é muito cruel e por isso precisamos criar algumas defesas para conseguir encará-la. Na minha cabeça, pude então entender significa o que disse Cristo: "Quem não tem pecados que atire a primeira pedra!". Achei ainda mais importante acreditar em Deus, seja como uma defesa divina para conseguir encarar a realidade humana ou como realidade divina para conseguir encarar as defesas humanas.

quarta-feira, 12 de março de 2008

Tempo Rei

Transcorrei ó Tempo Rei... Transformai as velhas formas do viver... Ensinai ó Pai o que eu ainda não sei...São realmente lindas estas palavras do Gilberto Gil. E particularmente hoje elas têm um significado todo especial:

10 anos de convivência ao lado da Cisne Bela transcorreram. Uma década, um filho e um contrato de união estável...

As nossas velhas formas de viver foram completamente transformadas. O tempo tem um significado diferente. Procuro encará-lo como uma questão de prioridades. Desde que o Pequeno Cisne nasceu, aprendi a deixar algumas coisas de lado. A pensar antes no porque e para que fazê-las, já que aquelas que não tinham tanta importância assim, nesse novo contexto familiar, tive de abandonar, assim como a criança abandona os brinquedos quando a adolescência chega...

Ensinai ó Pai a não deixar que o cotidiano atropele a beleza desse encontro,que já rendeu muitos frutos e que hoje completa mais um ciclo...

quinta-feira, 6 de março de 2008

O essencial é invisível para os olhos.

Conhece essa frase de algum lugar? Pois é decoramos o quarto do Pequeno Cisne com os motivos da estória do menino-príncipe contada por Antoine de Saint-Exupery.

Nossa casa é pequena e simples, mas nunca faltou amor. Poderíamos morar em um lugar maior e mais bonito? Sim, poderíamos. Mas não teríamos os cachorros, o gato, os avós, que estão perto e ajudaram muito.

Maternidade não é coisa simples, acho que nunca estamos preparados para ela. Apesar do relacionamento estável, dos anos de psicanálise, da experiência dos meus 36 anos, da gravidez e parto tranquilos, quando o nenê chega em casa, a pergunta é a mesma. E agora, o que é que eu faço com esse ser tão pequeno e que depende tanto de mim?

Os cuidados como recén-nascido são exaustivos e precisamos de muita ajuda da companheira/o. A tarefa não é fácil e frequentemente a gente se vê com a pergunta "Será que eu vou dar conta?" formulada na nossa cabeça. Nosso humor muda muito e não conseguimos entender o porquê. Como é que algo que nos traz tanta felicidade, sentimento de família, de continuidade da nossa existência, pode também nos trazer sentimentos tão complexos como perda da individualidade, mudança no relacionamento com a companheira/o e uma série de pensamentos desconhecidos e angustiosos que passam pela nossa cabeça?

As respostas vêm com o tempo. Com as longas horas que dedicamos ao pequenino. Horas que podemos aproveitar para refletir e analisar a nós mesmos ou não. As vezes não temos condições psicológicas ou financeiras para tanta dedicação. A vida cotidiana exige muito das pessoas.

No meu caso foram longas horas e muita reflexão que me ajudaram a cuidar do bebê. Quando me dei conta, algum tempo já havia passado e percebi que o Pequeno Cisne estava bem fisicamente e emocionalmente.

Sim, eu consegui atender as nescessidades do pequetito. E isso fez toda a diferença, para ele e para mim. Ele cresce na mesma medida da minha auto-estima.

Mas aqui gostaria de fazer um parentese. No caso da maternidade por um casal homossexual, apesar do mesmo sexo, as funçoes familiares são diferentes, de acordo com a natureza, com o perfil de cada uma. Uma delas pode ter mais facilidade para sustentar uma família enquanto a outra pode ter mesma facilidade para ficar cuidando do bebê. Isso não significa que temos que escolher, que estas funções são excludentes uma da outra e mesmo que estas funções sejam de fácil execução, ou que uma seja mais importante que a outra. Isto seria uma forma de "machismo" com outra roupagem. O que gostaria de dizer é que ambas podem trabalhar e cuidar do bebê, mas que, de acordo com o perfil de cada uma, ela executa esta ou aquela tarefa de forma mais suave, eu até diria de forma menos árdua.

Ainda não temos todas as respostas. Como é que vai ser quando o Pequeno Cisne descobrir que a maioria das famílias são diferentes da nossa, são famílias de patos? Acredito que todo esse empenho que nós tivemos, a Mamãe Cisne e a CisneBela, desde a concepção até o desmame do pequetito, aliás auto-desmame, com 1 ano e 3 meses, constituam uma base emocional sólida para que possamos juntos, a família cisne, encontrar respostas.

quarta-feira, 5 de março de 2008

Como O Pequeno Cisne Nasceu

Em agosto de 2005, quando completei 35 anos, resolvi engravidar. Já vivia uma relação estável há 7 anos e o relógio biológico começou a dar sinais. Nunca antes tinha tido cólicas menstruais. Mas de repente vi que precisava consultar um profissional da área porque estava me sentindo incomodada durante os períodos da menstruação. Aproveitei a consulta ginecológica para conversar com a médica sobre as possibilidades de filhos para um casal homossexual. Fisicamente estava bem. Emocionalmente também. Nunca tive problemas com a parte reprodutiva e ginecológica do meu corpo. Então, de repente pensei: E se eu engravidar? A CisneBela (minha companheira)vai adorar me ver de "barrigão".

Fomos procurar uma especialista em reprodução assistida, uma médica que além de muito competente e compreensiva, acolheu prontamente a idéia da maternidade por um casal do mesmo sexo.

Comecei a tomar vitaminas para fortalecer o organismo e escolhemos o doador anônimo de um Banco de Sêmen. Este Banco de Sêmen é de confiança e pertence a um hospital de muito boa reputação em São Paulo. Funciona como um Banco de Sangue. Familiares de pessoas em tratamento, no caso a infertilidade, se oferecem como doadores, depois de passar por exames clínicos que atestem a qualidade do esperma e a boa saude do doador.

A primeira inseminação artificial foi em janeiro de 2006, mas só engravidei em março, após a segunda tentativa. Tive uma gravidez muito tranquila e só engordei 9 quilos. Quando foi nescessário fazer repouso, fiz e quando fui liberada para fazer atividades físicas, fiz. Levava o Pequeno Cisne para nadar. Ele na minha barriga, eu e a CisneBela na Piscina.

Enfim dezembro chegou e com ele o Pequeno Cisne. Logo no primeiro minuto do dia primeiro do último mês de 2006, a minha bolsa se rompeu. Fomos para a Maternidade. Já estava em trabalho de parto e com 7 cm de dilatação. Para minha surpresa, pois imaginava que toda mulher tem medo do momento do parto, estava muito calma. Consegui passar pelo parto como um momento de plenitude consciente.

Fiz cesária e tomei anestesia. Fiz também bastante esforço para ficar acordada e acompanhar o que estava acontecendo. Na hora em que ele nasceu, tocava no rádio a música "Don't worry, be happy!" Que resume bem o humor dele. Ele é um bebê feliz. Doce, que foi a primeira impressão que tive ao ver a carinha dele e feliz, como descobrimos mais tarde através dos seus sorrisos e gargalhadas!.

A história da Mamãe Cisne

Bom, acredito que vocês devem conhecer a estória do Patinho Feio. Pois é, aquele que quando criança, se achava feio e desengonçado, mas que quando cresceu e amadureceu, descobriu que era apenas diferente, um cisne.

Um cisne fêmea que se tornou mãe, uma mãe diferente, mãe homossexual. Decidi criar esse blog, não porque goste de escrever ou ache que escreva bem, mas porque senti a nescessidade de compartilhar essa experiência com todos aqules que se identifiquem com a experiencia universal de ser mãe ou com a experiência homossexual ou com ambas, mães homossexuais.